Poesias de Ricardo Ohara





Caminhos...
 
 
Mesmo que tenhamos
A impressão, a sensação,
De que os dias são iguais,
O invisível se materializa.
As pedras se movem,
Mudam de direção
Sinalizando e apontando
Possibilidades, caminhos,
Recuos, atalhos e até mesmo
As encruzilhadas da vida.
As linhas se tramam,
A poeira é levada pelo vento,
O caminho é avistado.
O seu caminho, a sua vida!
Escolhas serão lançadas.
É preciso acreditar, antes
De tudo, em você.
Acreditando em você
O divino é exaltado
O milagre é consumado.
Senão, todos os seus dias
Serão eternamente iguais.




Ambíguo
 
 
Na loucura,
A graça se esconde.
O sorriso se esvai
Contagiando o espelho.
Mas a graça da loucura
Espanta a própria graça,
Calma, serena, transparente,
Verdadeira, suave e até irreverente.
O espelho desconhece
A graça sem graça,
Revelando a loucura solta
De uma alma ambígua,
Com veneno na língua,
Isenta do sabor
Da sua própria vida.

 

ASAS DO TEMPO
 
Abro as asas no tempo.
Dou-me conta
De cada segundo,
Minutos, horas,
Meses, anos, décadas.
Esbarro-me, choco-me
No limite do meu ser.
O que já conheço
Pesa-me nos ombros.
Sei que não chega a ser
Uma pequena fração
Do que me virá pela frente.
Mas tenho que arriscar,
Agarrar-me a mim mesmo,
Escalar a montanha
Sem olhar para baixo,
Sem medo de cair
No precipício.


 

Ô BOCA
 
Ô boca,
Falas o que pensas?
Ô boca,
Falas o que vives?
Se não falas o que pensas
E nem o que vives,
Ô boca, então,
Por qual motivo
Não te  calas?


Ricardo Ohara (29/11/2025)



BICHO HOMEM
  
Quando o homem
Lança-se contra
A sua própria carne,
Terá ele a visão
De que ser tão diferente
Não o torna desigual,
Um ser supremo,
Um deus, imortal?
Será o bicho homem,
Criatura racional,
Tão imparcial?
Será o bicho homem
Mais bicho do que homem?
Será ele tão irracional?
Porém, é clara a diferença
Entre o homem e a fera
Na página de um jornal.
Na selva, a fera come fera.
No asfalto, o bicho homem
Escolhe a presa, joga à vera
E ainda se sente o tal.




SE O GLOBO TERRESTRE PARASSE


Se o mundo parasse,
Ou melhor dizendo,
O globo terrestre,
Todo o universo, 
Onde estaria eu?
O que seria eu?
Continuaria sendo
A mesma pessoa?
Ficaria inerte?
Enlouqueceria?
Por acaso carregaria
Sobre as minhas costas
O peso da grande esfera?
E se em um piscar de olhos
O globo voltasse a girar
No sentido contrário?
Voltaria eu para o útero
Daquela que me gerou?
Seria eu fragmentado?
Dizimado ao nada?
Voltaria eu ao pó?
À imensa escuridão?


 

AS FLORES NÃO MORREM EM VÃO

 

De que vale o homem
Fazer e acontecer
Se em cada amanhecer
Esquece o verdadeiro amor?
Empenha-se na destruição,
Vive em sua função,
Nega o seu sentido,
Nega a sua criação.
As flores não morrem em vão,
Marcam o seu sentido,
Revelam a criação.
Nascem, crescem, vivem, morrem,
Morrem, nascem, crescem, vivem,
Vivem, morrem, nascem, crescem,
Crescem, vivem, morrem, nascem.
Revelam a criação!
As flores não morrem em vão!

 




CORRUPÇÃO, O VÍRUS
 
Corrupção,
Vírus que corrói
E assola toda a sociedade.
Manipula o seu portador,
Domina-o e o destrói,
Anula-o e o instiga
Ao doce prazer
De sorrir com sarcasmo
Para si mesmo, zombando
Da sua total imoralidade.
Transforma-o em prisioneiro
Na sua masmorra interior,
Onde jaz a sua sombra,
Sua eterna companheira,
Cúmplice do seu desejo nefasto,
O maior dentre todos os outros,
Aquele que o alimenta de fato,
Que não se serve em nenhum prato:
O excêntrico poder.

 

 


   Filhos da Guerra

 

No campo da guerra... a guerra.
A guerra... mulheres parem
Os filhos em meio à guerra.
A guerra... mulheres parem
Os filhos para a guerra.
A guerra... mulheres alimentam
Os filhos da guerra.
A guerra... mulheres na guerra
Lutam contra os filhos da guerra.
A guerra... mulheres sem terra
Rolam pelo chão,
Rasgam a própria carne,
Clamando pelo fim
Da guerra. 
 
Ricardo Ohara (03/11/2025)



 

LUTA DE SENTIMENTOS

 
Dentro de mim, uma arma,
Onde o sim e o não,
A loucura e a razão,
Digladiam-se entre si.

Luta de sentimentos,
Artimanhas, armas, retaguardas,
Gritarias, clamores, confusão,
Defrontam-se o sim e o não!

A ansiedade clama
Pelo resultado final.
Melhor seria, afinal,
Que não começasse a luta.

A expectativa... a dor
Sobeja o golpe mortal,
Quem será o campeão?
O sim ou o não?




PEQUENO GRANDE MUNDINHO
  

Quando saímos do nosso
Grande pequeno mundinho,
Percebemos que há um outro
Bem maior e mais vivo.
Que existem outras pessoas.
Que há delírios, conflitos,
Problemas maiores do que o nosso.
E que bastaria não uma tempestade,
Mas uma suave brisa
Para varrê-los como poeira.
Mas o que importa os outros?
Estamos presos a nós mesmos.
Problemas todos os têm.
Que cada um fique com os seus.
É assim que pensamos.
É assim que voltamos
Para o nosso pequeno mundinho,
Para a nossa redoma de vidro,
Onde a qualquer momento
Uma pedra será lançada. 



O LAGARTO 

O lagarto
Sobre a pedra
Engole o sol,
Vomita a chuva,
Troca de pele,
A pele vermelha.
O lagarto
Sobre a pedra
Engole a carne,
Vomita os ossos,
Troca de pele,
A pele da presa.

 Ricardo Ohara (21/10/2025) 


 

Eterno Sonhador

 


Sou o espaço vazio,
O louco sem destino,
A torre da igreja
Sem a badalada de um sino.
 
Sou o grito perdido
Procurando por alguém,
O eco que não retorna,
A resposta que não vem.
 
Sou o mapa aprisionado
Vagando no mar... aquém,
O tesouro enterrado
Na ilha do desdém.
 
Sou a esperança à vista,
Alívio da dor,
Sou poeta, sou artista,

Eterno sonhador.

          

 

Só Um Impulso
  
 
Desejo, pura vontade
De obter a propriedade,
Desprender-se do vazio
Que envolve por inteiro
O corpo nu, ávido.
Desejo, a procura,
A cura, um feixe de luz
Que vaza docemente
Pela porta entreaberta.
Desejo, uma simples
E adorável descoberta
Que chega ao fim
Sem mesmo ter começado.
Desejo, pura frustração,
Maldita conclusão
De que foi só o impulso
De um corpo nu, ávido.
        


Olhos do Desejo


Os olhos…  Apenas um olhar, nada mais que um simples olhar. Olhos negros, castanhos, verdes, azuis… O que os olhos traduzem? Sentimentos, expressões , movimentos instintivos, mecanismos sensoriais… Ou vão bem além de tudo o que podemos imaginar? 
 
Esses olhos me dizem algo,
Posso lê-los claramente,
Mesmo querendo não entender,
Não saem da minha mente.
 
Será que por detrás deles
Há mais coisas que não posso ver?
Pudera eu conhecer os seus segredos,
O que mais terão a esconder?
 
Sei que por eles sou assediado,
Cercam-me por todos os lados,
Mesmo quando estão cabisbaixos,
Disfarçados, fingindo não me ver.



Tola Cegueira
 
 
Olhas-te no espelho
Mas não me vês.
Caminhas comigo,
Trabalhas comigo,
Jantas comigo
E não me vês.
Atravessaste gerações,
Celebraste ocasiões,
Sempre olhando para mim
E sem me ver.
Quão tola cegueira!
Eu estava o tempo todo
Olhando para você. 

  

 

Cheiro Suave 
 

As portas, antes, cerradas,
Abriram-se de mansinho.
O sol, oportunista, sorrateiramente,
Invadiu o meu esconderijo.
O meu corpo frio,
Tornou-se quente.
Nos meus olhos,
Um brilho diferente.
Na minha pele,
Um cheiro suave.
E o silêncio perturbador
Foi totalmente quebrado
Pelo ruído ensurdecedor
Das velhas dobradiças.
               


*SONETOS*


Belo Recanto


 
As minhas asas invisíveis
Alçam-me além do meu ninho.
Trilhas aos meus olhos visíveis
Conduzem-me por um caminho.
 
Livre do fardo do cansaço,
Pouso em um belo recanto.
Ouço pássaros! Um sanhaço
Alegra-me com o seu canto.
 
Aromas suaves de flores
Provocam-me um leve torpor,
Induzindo-me a hibernar.
 
Borboletas de várias cores
Tomam-me feito um cobertor,
Prolongando o meu despertar.


 


Alma Gêmea

 
Alma gêmea, luz de mil vidas.
Água aquecida que borbulhou,
Lembrança viva que evaporou,
Folhas soltas ao vento, perdidas.
 
Aliança que o tempo quebrou
Sem a celebração de um rito.
Olhar que vaga no infinito,
Riacho que não corre mais: secou.
 
Secaram também as margaridas,
Os crisântemos e as tulipas,
As papoulas e as sempre-vivas.
 
Não há mais jardineiras floridas,
Um céu com estrelas e com pipas,
Só restaram lágrimas cativas.
 



O Meu Jardim

 
Eu sinto a falta do perfume
Das singelas rosas do meu jardim,
Da minha antiga bicicleta,
Eu sinto a falta até de mim.
 
Falta me faz os que já se foram,
Mais ainda os que aqui estão,
Falta me faz os que eu não tive,
Mais ainda os que nunca virão.
 
A idolatria à tristeza,
O cortejo à melancolia,
Não fazem parte da minha pauta.
 
Apenas retrato a beleza
Da vida, vividos em um dia,
Dos quais hoje eu sinto muita falta.



O Círculo


 
Fechei-me no círculo,
Fiquei prisioneiro.
O tempo, companheiro,
Fez-me um ridículo.
 
Eu perdi o segredo,
Joguei a chave fora,
Com ela foi embora
A sensação do medo.
 
Espero os pássaros
Retornarem no verão,
Talvez eu tenha sorte!
 
Pois frios são os aros
Desta escura prisão,
Condenação sem morte!




Menino Homem,
Homem Menino

 
Corre, corre, corre o menino
Pela estrada do seu destino.
Atraído pelo som do sino,
Corre, corre, corre o menino.
 
Corre o menino sem destino,
Fugindo do feitiço do sino.
Corre, corre o homem menino
Para o abrigo uterino.
 
Menino travesso, arredio!
Bateste ao vento a poeira
Que a lama deixou após secar.
 
Descobriste a ponta do fio
De uma trama feita na eira
Antes do menino homem chegar.



As Brancas Velas


 
Sopra o vento as velas
Do barco que a navegar,
Deixa-se levar por elas
Sem hora para retornar.
 
Vai-se o barco sem rumo
Arrastado pelo vento,
Nas velas o seu aprumo,
Nas águas o seu alento.
 
Em um triz o grande rastro,
Pelas ondas encoberto,
Desaparece ao olhar.
 
As brancas velas sem mastro
Cruzam o azul aberto.
Agora o céu, não o mar.


 


Quanto Custa Um Boi?


 
Sigo sem eira nem beira
Procurando não tropeçar.
Na mente uma besteira
Que o vento faz tilintar.
 
Mas se o que é, nunca foi,
Se o que foi, nunca será,
Quanto é que custa um boi
Sem um carro para puxar?
 

Quanto vale o que penso?
Sinceramente, eu não sei.
Não me lembro nem do jantar.

 
Será que estou apenso?
Será que só pensei, pensei?
Deixei de raciocinar?
 



Amigo Vento

 
Carregue amigo vento
Essas minhas amarguras
E me traga doces curas,
Um milagroso unguento.
 
Não retorne sem encontrar:
Ópio para minh’alma,
Canto que me traga calma,
Brilho para o meu olhar.
 
Vá o mais breve que puder.
Corra os cantos do mundo,
Corra! Não olhe para trás.
 
Vá o mais breve que puder.
Milésimos... um segundo
Eu lhe concedo, nada mais.


*****



Palavras-Chave
Poesias Sobre a Vida, Poesias Curtas, Poemas de Amor, Poesias Bonitas, Poemas Românticos, Poesias Sobre a Natureza, Poesias de Ricardo Ohara.

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